Quem quer ser uma paquita, levanta a mão.🤚🏽
- Ana Paula Corrêa
- 23 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de jun.

Quem nunca quis ser uma paquita?
Se a pergunta do documentário tivesse sido feita diretamente a mim, com certeza eu levantaria a mão. E não seria por não entender a pergunta não. De fato eu nunca quis ser uma paquita. .
Nunca quis ser paquita, do mesmo jeito que nunca sonhei em ser uma princesa. Pelo simples fato de que elas são todas iguais e de que eu sou diferente.
O documentário Para Sempre Paquitas, foi lançado na plataforma de streaming Globo Play em 16 de setembro deste ano(2024). Dirigido pela ex. paquita Ana Paula Guimarães. O documentário tem apenas 1 temporada de 5 episódios de aproximadamente 60 minutos.
Contando a história sobre como nasceu a fantasia de muitas meninas adolescentes nos anos 90 e 2000 de serem assistentes especiais de palco, da rainha dos baixinhos Xuxa.
Não que o documentário me surpreendesse, mas deixo bem claro para meu cérebro as razões pelas quais ser paquita nunca esteve nos meus sonhos. Elas eram um grupo elitizado e padrão.
As primeiras assistentes vinham de famílias com boas condições financeiras e todas, absolutamente todas eram brancas. Como uma criança preta ou parda poderia se identificar?
Para além disso, as pressões estéticas e cobranças sofridas pelas meninas foi outro ponto importante na pauta.
Se pensarmos bem, será mesmo que ninguém nunca percebeu?
Não estou aqui para defender Marlene Mattos, longeee de mim, mas enquanto assistia , percebia pensando: "Gente, será mesmo que essa mulher fez tudo sozinha e ninguém, absolutamente ninguém nunca pensou em fazer nada?"

E permanecendo na minha própria reflexão respondo a mim mesma. Não! e sabe o motivo?
NORMALIZAÇÃO.
Nos anos 80,90 e 2000 muitas coisas eram normais.
Meninas tratadas como se já fossem adultas.
Sexualização para vender. Por que sexo vende!
Hoje, ao assistirmos, ficamos enojados com tudo o que elas passaram. Mas olhamos para o ontem com os olhos do hoje e a conta simplesmente não vai fechar. Nunca.
A Marlene foi uma mulher que aprendeu muito cedo e muito bem, como as coisas funcionavam. Ela tinha uma visão masculina do negócio, pois em sua parcela bruta, os investimentos são provenientes deles.
Ela tratava as meninas como mercadorias, porque é assim que o mercado encara as pessoas - e digo isso no presente, porque ainda é assim.
Estamos nos vendendo diariamente, nosso tempo, nossa imagem, nosso trabalho.
Quando as meninas relatam que era pedido a elas que retirassem a roupa para verem se haviam ganho peso ou não, não havia nada sexual naquilo, apenas produtos que não poderiam estarem avariados.
Quando eram chamadas de p*tinhas, é por que eram vistas como mulheres e não como meninas. Afinal, elas tinham esse papel. As paquitas tinham dificuldades na escola, trabalhavam como mulheres adultas e se quer tinham tempo de viver o final da infância, muito menos da adolescência. Pesado, eu sei, mas não me leve a mal, está tudo lá, no documentário.
Alguém, ficou surpreso?
Desculpa admitir, mas absolutamente nada ali me surpreendeu e isso olhando com o olhar de hoje. Pois todo o cenário por elas vivenciado era propicio o a tudo que aconteceu.
Nessas horas eu agradeço, por nunca ter tido o sonho de ter sido uma paquita, nunca ter idealizado aquele lugar, tão pouco por nunca me sentir de fora de um mundo, no qual claramente eu de fasto não daria conta.
Como citei, não estou defendendo as ações da Marlene Mattos, mas como psicóloga (agora deixo de lado a Ana Paula) compreendo que ela fez o que estava a seu alcance para garantir o sucesso do negócio. Mesmo que isso custasse a saúde mental e emocional das meninas. Ela fez o que sabia, aprendeu com os melhores nesse ramo, os homens.
Concordo que Marlene deveria ter tido empatia - OBVIAMENTE. Sororidade que chama não é? Mas quem conhecia isso nos anos 90?
As mulheres foram sendo atropeladas, caladas, rebaixadas e humilhadas e para sobrevivermos precisamos ser resistentes e resilientes (outra palavra contemporânea).
O que difere Xuxa de Marlene Mattos hoje em 2024, é que Xuxa se deu conta de o que fez e sente o pesar do arrependimento, ao passo que Marlene se quer pediu desculpas a ninguém.
Seu pensamento e comportamentos são machistas e isso não muda quem ela é.
Nessas horas eu dou graças a Deus, por ser diferente, não ter caído no padrão. mesmo que isso me cause sofrimento as vezes e não idealizar estar em um lugar tão marcadamente adoecedor para as mulheres.
Ainda bem, que eu nunca quis ser uma paquita.

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