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O arroz doce que ninguém comeu

Festa junina na firma. Cada um leva um prato.

Eu, consciente da minha alma sul-mato-grossense e da fama do povo daqui (Goiânia) não gostar de arroz doce, fui lá e levei mesmo assim.

Por quê? Porque eu gosto. Porque uma pessoa específica ali também gosta. E porque me deu vontade.

Resultado: ninguém tocou.

E mesmo sabendo que isso podia acontecer, doeu. Não por causa do arroz doce. Mas pelo que isso ativa dentro da gente.

Sabe aquela sensação de “ninguém quis o que eu ofereci”?

É. Aquela. Que parece pequena, mas carrega uma história enorme.


A mesma sensação de quando você tinha uns 9 anos, e sua mãe te mandou pra escola com um bolo de fubá pro piquenique. Um bolo simples, sem cobertura, sem granulado. Um “bolo de adulto”. Enquanto as outras crianças levam salgadinhos, refrigerantes e outros alimentos. Você olhava pro seu bolo caseiro e sabia: ninguém vai querer.


E ninguém quis. Você voltou pra casa com o bolo inteiro. E o coração, meio mastigado.

Aí você aprendeu, sem que ninguém precise dizer, que agradar é importante.

Que ser aceita é fundamental.

Que levar o que os outros querem (e não o que você tem pra oferecer) parece mais seguro.


Nascia ali a “boazinha”.

Aquela que se molda, que se adapta, que tenta prever o gosto alheio. Tudo pra não sentir de novo o que sentiu com o bolo de fubá.

E sabe o que é mais louco?A gente cresce. Vira adulta. Paga boletos, responde e-mail, tem planilha e até um cantinho de autocuidado no banheiro...Mas quando a rejeição aparece, a menina do bolo de fubá ainda tá lá, em silêncio, sentindo tudo de novo.


Você se arruma pra um encontro e a pessoa cancela.

Faz um esforço no trabalho e ninguém reconhece.

Fala algo sincero num grupo e vem aquele silêncio constrangedor.

E pronto. Volta a sensação de não ser escolhida.


Mas aqui vai a virada de chave: sentir isso não é sinal de fraqueza.

É sinal de que você está viva. E conectada com a sua história. O problema não é sentir , é fingir que não sente, e passar a vida tentando evitar esse desconforto.

Crescer não é virar uma rocha fria e impenetrável. Crescer é olhar pro arroz doce que ninguém tocou e pensar: “Sim, doeu. Mas eu fiz o que eu quis fazer.”


É aprender que agradar a todos é impossível — e tentar, além de exaustivo, só alimenta a impostora que mora aí dentro dizendo que você precisa ser “mais isso” ou “menos aquilo” pra ser aceita.

Levar o arroz doce mesmo sabendo que vai sobrar é um ato de autonomia.

É dizer: “eu me respeito o suficiente pra fazer o que eu gosto, mesmo que ninguém aplauda.”

Claro que dói não ser escolhida.Mas viver só pra ser a escolha dos outros é o que realmente machuca.

Então, da próxima vez que você sentir aquela velha dor da rejeição, respira fundo.

Lembra da criança com o bolo de fubá. E agradece por hoje você ter escolha.

Você pode continuar agradando, ou pode começar a viver.

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