O que você não viu em: O Diabo Veste Prada.
- Ana Paula Corrêa
- 28 de abr.
- 4 min de leitura
Recentemente começaram os comentários sobre O Diabo Veste Prada 2 e, antes de entrar na febre do momento, eu decidi fazer outra coisa: rever o primeiro filme. Mas dessa vez com a cabeça de 2026.
E não é que tudo mudou?
Ou talvez o filme sempre tenha sido outra coisa e eu só não tivesse repertório para enxergar.
Quando Andy (e se você não sabe quem é ... é a Anne Hathaway) chega para a entrevista na Runway, ela claramente não leva a moda a sério. E talvez, naquela época, muita gente também não levasse. A narrativa parecia simples: uma garota inteligente presa em um ambiente fútil, comandado por uma chefe cruel e obcecada por aparência.
Só que reassistindo hoje, mais de 20 anos depois, a perspectiva muda bastante.
Claro, existem problemas ali. A moda continua extremamente ligada a padrões estéticos rígidos, mesmo com todos os discursos sobre inclusão e diversidade. Quando Miranda Priestly (essa eu sei que você sabe quem é ... Meryl Streep) fala sobre mulheres mais magras, mais bonitas e mais elegantes, existe um desconforto evidente. Em 2006 isso era tratado quase como normalidade. Hoje, pelo menos, existe debate.
Mas o ponto que mais me chamou atenção não foi esse.
Foi perceber que Andy entra naquele ambiente desprezando completamente o trabalho das pessoas dali.
Quando ela chega à redação e vê todos correndo por causa da chegada da Miranda, a primeira reação é de julgamento. Como se aquilo fosse exagerado. Como se moda não fosse um trabalho “real”.
Mas eu entendo a Andy...
No entanto, se você trabalha com moda, saber sobre moda é o mínimo. Assim como em qualquer profissão. Eu trabalho numa empresa da área veicular: saber sobre carros faz parte. E sendo sincera? Me dá uma felicidade genuína quando entrevisto alguém que diz: “não conhecia muito a empresa, mas pesquisei antes de vir”. Isso demonstra interesse. Demonstra respeito pelo trabalho, sabe?
No ambiente corporativo, ninguém busca robôs workaholics sem vida pessoal. Mas pessoas que se importam com o que fazem, faz diferença.
E talvez o grande erro da Andy no começo não fosse não gostar de moda. Era achar que aquilo era inferior.
A famosa cena do suéter azul continua sendo uma das mais brilhantes do filme justamente por isso. Miranda não está falando apenas sobre roupa. Ela está explicando como existem cadeias inteiras de trabalho, influência, dinheiro, consumo e poder por trás daquilo que muita gente chama de “futilidade”.

Moda não é só roupa., já dizia Miranda.
Moda movimenta economia, comportamento, status, identidade, política e consumo. Existe uma razão pela qual ela existe e uma razão maior ainda pela qual ela movimenta bilhões.
O filme entende isso muito bem.
Um ranço chamado Nate
Outra cena que me marcou reassistindo agora é quando Andy reclama do trabalho para o namorado e recusa um pão com queijo. Nate responde algo como: “tem oito dólares de queijo aí”.
Porque para ele queijo não é “só queijo”.
Existe técnica, conhecimento, estudo, refinamento. E é curioso perceber como ele entende perfeitamente isso na gastronomia, mas não consegue aplicar a mesma lógica ao trabalho dela.
Aliás, Nate talvez seja um dos personagens mais irritantes do filme quando você reassiste na fase adulta premium.
Em vários momentos ele menospreza a carreira da Andy enquanto romantiza a própria profissão. Tem uma cena em que ele critica o preço absurdo de uma bolsa porque é “só uma bolsa para colocar coisas”. Mas pouco antes estava contando, cheio de orgulho, que passou meses aprendendo a fritar batatas na escola de gastronomia.

Ou seja: quando o assunto é o trabalho dele, existe arte, técnica e profundidade. Quando é o dela, vira futilidade.
E essa é talvez uma das críticas mais inteligentes do filme.
A sociedade respeita determinadas profissões e ridiculariza outras. Direito e medicina costumam ocupar um pedestal moral. Moda é superficial. Jornalismo é “coisa de gente alternativa”. Gastronomia é arte. Beleza é vaidade. E assim vamos criando hierarquias imaginárias sobre o que merece ou não reconhecimento.
Mas o ponto mais interessante do filme nunca foi a moda.
Foi o trabalho feminino.

Miranda Priestly é apresentada como fria, dura, impossível. Um homem na posição dela provavelmente seria chamado de brilhante, exigente ou visionário. Ela é chamada de cruel.
E ainda assim, na intimidade, Miranda demonstra preocupação com as filhas, com o impacto do divórcio e com o julgamento social que virá sobre ela. Porque mulheres bem-sucedidas ainda carregam a obrigação de serem emocionalmente impecáveis.
Ela não abandonou as filhas.
Mas também não ocupa o papel de maternidade ideal que a sociedade espera.
Miranda escolheu o trabalho muitas vezes. E isso transforma ela quase numa vilã moral.
Homens fazem isso o tempo inteiro e raramente precisam pedir desculpas.
Andy também passa por isso. Quando começa a crescer profissionalmente, as pessoas ao redor parecem incomodadas. Ela se atrasa, muda prioridades, começa a se dedicar. E imediatamente surge a ideia de que ela “mudou para pior”.
Mas será que mudaria tanto assim se fosse um homem crescendo na carreira?
Se fosse Nate trabalhando em um restaurante renomado, aceitando um emprego escada, ficando até tarde para conquistar espaço… será que alguém o chamaria de egoísta?
SERÁ??
Provavelmente não.
E talvez seja por isso que, reassistindo hoje, eu tenha sentido raiva quando Andy volta de Paris e ainda pede desculpas para o ex.
Ela celebrou as conquistas dele o filme inteiro.
Mas as dela pareciam sempre inconvenientes.
No fim, O Diabo Veste Prada tem a moda como pano de fundo, na verdade a sua inquietação é sobre as mulheres.
Sobre ambição, trabalho e culpa.
Sobre como mulheres que escolhem a carreira ainda são vistas como frias, egoístas ou desequilibradas emocionalmente. Sobre como o sucesso feminino quase sempre vem acompanhado de julgamento.
E talvez o mais importante seja perceber que a aprovação dos outros nunca vai acompanhar todas as nossas escolhas.
Nem todo mundo vai entender o valor do que você faz.
Mas isso não faz o seu trabalho menos importante.







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