A culpa (sempre) é da mãe
- Ana Paula Corrêa
- 11 de mai. de 2025
- 3 min de leitura

A gente cresce ouvindo que precisa ser forte. Que não pode chorar à toa. Que precisa ajudar. Que tem que dar conta.
A gente cresce ouvindo que precisa tirar nota boa — mas, quando tira, “não fez mais que a obrigação”.
Cresce ouvindo que tem que se comportar. Que “as pessoas nunca vão gostar de você assim”.
A gente aprende, bem cedo, que existir como a gente é pode não ser o suficiente.
E pronto: nascia ali a tal da síndrome da impostora. Antes mesmo de sabermos o que era isso, a gente já estava vivendo.
Na comparação com o primo que era mais educado.
Na coleguinha da escola que era mais esforçada.
Na moça da novela que sabia ser doce e sorria comedidamente.
Crescemos acreditando que tudo que fazemos nunca é suficiente. Que a gente sempre pode melhorar, fazer mais, ser mais. E que qualquer erro é quase um pecado capital.
Resultado? Adultas ansiosas. Que pensam demais no futuro. Que não descansam porque sempre tem uma culpa rondando o descanso.
Adultas multitarefas — porque aprendemos com nossas mães que fazer tudo ao mesmo tempo era uma espécie de superpoder.
Adultas que se elogiam se xingando: “Fiz bem, né? Mas também, nossa, fui uma idiota por demorar tanto”.
Adultas que engolem o choro e dizem que tá tudo bem enquanto fazem planilhas e mandam áudio pedindo desculpa por não responder mais cedo.
Mas a culpa é de quem?
A culpa é das mães?
Eu não vou dourar a pílula, então já deixo avisado: esse texto não é sobre uma mãe perfeita. Nem guerreira, nem incansável, tão pouco fada sensata.
É sobre uma mãe. Real. Humana. Falha. Presente. Irritante. Maravilhosa. Contraditória. Ou seja, gente como a gente.
E não, a culpa não é delas. Elas também foram talhadas assim.
Mães que aprenderam a incentivar com esporro. Que gritavam porque estavam cansadas. Que se anulavam pelos outros e achavam que isso era bonito.
Mães que não sabiam impor limites, mas sabiam exigir de si mesmas até o último fio de cabelo.
Mães que queriam ver a gente bem, mas acreditavam que isso passava por nos moldar.
E, veja, nem sempre era maldade. Muitas vezes era amor. Um amor torto, mas ainda amor.
Só que amor não isenta impacto. E a gente precisa falar sobre esse impacto.
Porque não é justo com elas nem com a gente perpetuar esse ciclo de sobrecarga, perfeição e autoabandono.
Não é justo esperar que mães sejam intactas diante do caos. Se até quem não tem filhos perde a paciência com o choro de uma criança, por que esperamos que elas sejam estátuas de serenidade?
A maternidade precisa deixar de ser esse altar intocável.
Mãe não é heroína. Não é santa. Nem sempre é exemplo.
Mãe é gente.
Gente que cansa.
Gente que tenta.
Gente que falha.
E quando a gente tira as mães do pedestal, a gente também se dá permissão pra errar, pra descansar, pra ser humana.
Não pra odiar a mãe. Mas pra entender a mulher que existia antes de você nascer — e a mulher que você se tornou depois que cresceu com ela.
Freud talvez diria que no fundo a culpa é delas. Mas hoje a gente entende que não é culpa, é repetição. E repetir, a gente repete. Mas também pode parar.
A gente pode olhar pra tudo isso com carinho e crítica.
Com perdão e com limite.
Com consciência e, se possível, com uma dose generosa de sarcasmo.
Porque rir disso também é resistência.






Comentários