Thais Carla fez bariátrica. Será o fim do body positive?
- Ana Paula Corrêa
- 6 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de mai.
Thais Carla vai fazer bariátrica. E agora, body positive?

Thais Carla não é só “a gordinha que dançava”. Ela é bailarina. E isso não é força de expressão. Nascida em Nova Iguaçu, cresceu rodopiando entre pliés e arabesques no balé clássico desde os quatro anos. Aos quatorze, fundou com a irmã um estúdio de dança.
Em 2009, venceu o quadro “Se Vira nos 30” do Domingão do Faustão, e de lá pra cá, foi abrindo alas com talento, coragem e – sim – um corpo fora do “padrão”. Fez parte do balé do Legendários, na Record, com o título “Gordinha Esquema” (que só no Brasil mesmo seria uma alcunha televisiva), e de 2017 a 2019 dançou nos palcos da Anitta, botando pra quebrar e pro mundo inteiro ver: o corpo gordo dança, encanta e brilha.
E foi brilhando que Thais se tornou uma figura importante no movimento body positive, representando mulheres gordas com liberdade, autoestima e a ousadia de não se esconder. Fazia posts de biquíni, coreografias, campanhas, tudo no volume máximo. Era sobre romper silêncios. Era sobre se ver em alguém.
Mas o preço de ser símbolo é alto. Recentemente, Thais anunciou que vai passar por uma cirurgia bariátrica, motivada por questões de saúde, após se envolver com a reeducação alimentar e práticas para melhorar sua qualidade de vida. O anúncio deixou a internet em chamas.
Algumas pessoas aplaudiram. Outras se sentiram traídas. E outras nem souberam o que sentir, só ficaram com aquele nó na garganta de quem já tentou se aceitar do jeitinho que é — e agora se pergunta se esse jeitinho ainda tem espaço.
O sentimento de abandono que surge não é sobre a decisão da Thais — que, aliás, é legítima, íntima e ninguém tem que dar pitaco. É sobre as outras mulheres gordas que a viram como referência e agora não têm a mesma estrutura, os mesmos acessos ou o mesmo suporte para fazer escolhas parecidas. Porque não, nem todo mundo tem grana, tempo ou rede de apoio pra se dedicar à saúde como um projeto pessoal financiado. E, sem querer, o que era representatividade vira ferida.
E isso se repete. Jojo Todynho passou pelo mesmo caminho: sempre falou com orgulho sobre o próprio corpo, enfrentou piadas, fez sucesso, virou inspiração. Hoje exibe um corpo transformado por cirurgia, dieta e treino intenso. E com ela, veio a mesma onda: “mudou”, “nos decepcionou”, “não era isso que ela dizia”. Mas como exigir coerência eterna de uma mulher que está só tentando sobreviver nesse jogo cruel que é existir fora dos padrões?
E nem precisa ir muito longe. Lembra das enchentes no Rio Grande do Sul? Thais foi criticada por doar roupas de tamanho grande. Teve gente dizendo que “ninguém vai querer essas roupas”. Como se pessoas gordas não perdessem tudo nas tragédias. Como se o corpo grande fosse indigno até da solidariedade. Ou seja: quando ela existe, incomoda. Quando ela ajuda, é rejeitada. Quando ela muda, é traidora. Que parte da equação dá certo?
A verdade é que Thais Carla é uma mulher real. E talvez o problema nunca tenha sido ela — mas o tanto de expectativa que a gente coloca em cima de uma mulher só. Ainda mais quando essa mulher ousa ser gorda e feliz.
O movimento body positive é importante, sim. Ele abriu portas, janelas e até alguns olhos. Mas agora ele precisa amadurecer. Precisa entender que aceitação não é sentença. Que amar o corpo também inclui cuidar dele do jeito que for possível e necessário para cada uma.
E que isso não é uma desistência, nem uma traição.
Porque se a gente só consegue se amar enquanto alguém nos representa, talvez a gente precise de mais representações. E menos ídolos inalcançáveis.
No fim das contas, o corpo da Thais é dela. Mas o incômodo que ele gera é nosso. Vale a pena perguntar: o que, exatamente, nos irrita tanto? Ela mudar? Ou o fato de a gente nunca ter aprendido a gostar de si mesma sem depender do corpo da outra?
Talvez a resposta esteja bem debaixo da nossa autoestima. Ou da falta dela.






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