Será que a gente consegue mesmo não fazer nada (sem surtar de culpa depois)?
- Ana Paula Corrêa
- 31 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Outro dia, deitada no sofá (sim, DEITADA, sem fazer nada!), enquanto meu marido fazia café na cozinha, me veio um pensamento: “eu consigo não fazer nada e não me sentir culpada por isso”. Bonito, né? Inspirador. Até parecia verdade.
Mas aí, entre o barulho da cafeteira e o cheiro do pão na chapa, minha mente já tava gritando:– A roupa tá no varal.– Tem que colocar lençol limpo.– A casa tá uma zona.– Tem roupa pra passar.– E a marmita da semana, minha filha?
Pronto. Acabou o glamour do “tempo livre”.

Cadê o tal do ócio criativo?
Tava lendo um livro maravilhoso, chamado O Poder do Tempo Livre. Um livro leve, criativo, escrito por um criativo (óbvio) que fala sobre como usar o tempo livre pra criar projetos paralelos. Tudo muito lindo.
Mas antes disso, li também outras matérias , nas quais relatam que na atualidade estamos sem tempo livre. Ocupamos cada instante com tarefas e mais tarefas e obrigações disfarçadas de de produtividade.
Tédio? Esquece. A gente não tem mais aquele momento de olhar pro teto e simplesmente existir. E se tiver, vem junto com um combo: ansiedade, culpa e um leve surto existencial.
Agora me diz: quem é que consegue não fazer nada e ainda por cima não se sentir uma inútil?
Ser mulher é ter tempo livre com a alma endividada
Sabe aquela imagem do cara largado no sofá jogando videogame, enquanto a pia da cozinha faz um coral com os pratos sujos? Pois é. Imagina essa mesma cena com uma mulher no sofá. A cabeça dela tá onde? No sofá não é. Tá no checklist invisível de tudo o que tem que ser feito antes que o mundo entre em colapso.
Roupa passada, louça lavada, marmita da semana pronta, roupa de cama trocada, remédio do filho separado, lanche da escola, lanche da mãe, e o santo do controle remoto que ela nem consegue segurar sem pensar “tô sendo egoísta”.
E olha, nem entrei na questão da carga mental. Essa vem no kit básico de ser mulher adulta. Você não precisa estar fazendo nada, mas a mente tá processando 49 abas abertas, 32 delas travadas, e uma tocando música de fundo sem saber de onde.
Eu odeio passar roupa, mas também odeio sair amarrotada
Aqui em casa a gente tem uma dinâmica (uma palavra bonita pra disfarçar o caos): eu odeio passar roupa, mas odeio mais ainda sair com a roupa amassada. Meu marido não liga de sair amarrotado, mas também não pega no ferro. Então, adivinha? Eu passo. Com ódio. Com raiva. Com uma sensação de que tô perdendo a vida em frente a uma tábua de passar. Mas pelo menos, durante a semana, eu tenho liberdade de escolher o look sem precisar passar nada em cima da hora. É isso. Ou raiva no sábado ou desespero na terça-feira às 7 da manhã.
E você aí achando que “não fazer nada” era só uma questão de se permitir.
A verdade que ninguém conta sobre o tempo livre
A verdade, amiga, é que ter tempo livre sendo mulher é quase um luxo de outro planeta. Não porque a gente não queira. Mas porque pra não fazer nada, antes a gente tem que fazer TUDO. E, de preferência, sem deixar nada pra trás que vá explodir em culpa depois.
Então, da próxima vez que alguém te disser pra tirar um tempo pra você, avisa que você até quer.
Só precisa antes: – Passar a roupa.– Lavar a louça.– Fazer o almoço da semana.– Pagar os boletos.– Trocar os lençóis.– Organizar a vida.
Aí sim, depois de tudo isso, talvez você consiga deitar no sofá por cinco minutos… até lembrar que esqueceu o frango no congelador.
Mas é importante que fique claro, que o o problema não é o tempo livre. O problema é a gente se dar o direito de tê-lo. Porque tempo livre não é sinônimo de preguiça. Não é irresponsabilidade. Não é desorganização.
É só… tempo livre. Aquele espaço em que você não precisa provar nada pra ninguém. Só existir. Respirar. Talvez até fazer NADA — e não surtar com isso.
Mas enquanto isso não acontece (e a pia continua cheia), pelo menos a gente fala sobre isso. Porque entre uma tarefa e outra, a gente ainda arranja tempo pra refletir. E isso, minha amiga, já é um começo.






Comentários