A ansiedade de separação e outras manias felinas (mas também humanas)
- Ana Paula Corrêa
- 16 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Meu gato não aceita a ideia de que eu possa fazer xixi sozinha. Não importa que meu marido esteja na cama, dormindo lindamente do outro lado da porta no quarto ao lado. Não importa que o mundo siga girando lá fora. Ele quer a minha presença. Não só quer ele exige.
Se eu fecho a porta: ele mia.
Se eu deito: ele escala.
Se eu respiro diferente: ele suspeita. E se eu ignoro? Ele me encara até eu ceder.
No começo, achei graça. Depois, percebi: não somos tão diferentes assim. Talvez todo mundo tenha dentro de si um gato carente e dramático que não sabe lidar com pequenas separações.
Porque a tal da ansiedade de separação não acontece só com pets. Acontece com a gente também. Aliás, muito mais do que a gente gosta de admitir.

Quando a gente mia por dentro
A ansiedade de separação, de forma simples, é essa aflição que bate quando alguém que a gente gosta se afasta. Às vezes, a pessoa só vai trabalhar, ou fica um pouco mais quieta, ou demora pra responder uma mensagem e pronto. Já bate aquela inquietação, aquela angústia, aquele medo bobo (mas real) de ter sido esquecida, trocada, abandonada.
E isso não tem nada a ver com "carência", no sentido pejorativo. Tem a ver com vínculo.
A gente se apega pra sobreviver
Desde pequenas, a gente aprende que precisa de alguém pra se sentir segura. Uma mãe, uma avó, uma amiga, um namorado, uma terapeuta, um crush no Zap. Qualquer pessoa que nos devolva a sensação de “ok, tá tudo bem”.
A verdade é que criamos vínculos afetivos não só por amor, mas por necessidade de segurança emocional. Como se o outro nos ancorasse. Como se o mundo ficasse menos assustador só porque alguém está por perto.
E quando esse “alguém” se afasta (mesmo que por um tempo curto), é como se a gente se desorganize por dentro. Exatamente como o gato que mia na porta do banheiro porque a humana sumiu.
Presença: o nosso cobertor emocional
A presença do outro acalma. Regula. Organiza. A gente se regula emocionalmente muito mais através da conexão do que do autocontrole. Mas como ninguém consegue estar colada em ninguém o tempo todo (nem deveria), isso vira um problema.
O gato, pelo menos, pula no nosso colo e resolve. A gente, não. A gente disfarça. Finge que tá tudo bem. Racionaliza, responde “imagina, eu tô ótima”, mas por dentro… tá miando.
Aprender a lidar com o silêncio (e com a porta fechada)
Nem todo mundo vai poder (ou saber) estar com você o tempo todo. Às vezes, a pessoa que você ama vai dormir. Vai viajar. Vai ficar em silêncio. Vai demorar a responder. Vai se ausentar. Vai precisar cuidar dela.
E é aí que entra a parte difícil: lidar com a separação sem achar que é rejeição. Lidar com o silêncio sem achar que é indiferença. Lidar com a ausência sem concluir que tem algo de errado com você.
Os gatos lidam com isso melhor do que a gente. Depois de um tempo, eles dormem. Se lambem. Vão caçar uma mosquinha invisível. Os cães, coitados, sofrem mais — mas até eles aprendem que nem sempre a gente vai estar ali do lado.
E a gente? Quando é que a gente vai aprender que o outro pode se afastar… e ainda assim nos amar?
No fundo, somos todos um pouco gato
Tem dias que a gente só quer mesmo deitar no colo de alguém e ser cheirada na cabeça. Tem dias que só queremos saber que somos importantes. Que alguém se importa. Que não vão nos esquecer só porque saímos de cena por uns minutos.
Mas a verdade é que o amor não evapora com a distância. A presença emocional não depende de um corpo colado no outro o tempo todo. E a nossa paz não pode ser um refém da resposta imediata de alguém.
Então sim: talvez todos nós sejamos um pouco esse gato. Fuçando axilas. Seguindo até o banheiro. Miando na porta. Querendo ser amadas e vistas o tempo inteiro.
E tudo bem. Desde que, de vez em quando, a gente também aprenda a deitar no nosso próprio canto. Confiando que quem ama… volta. E que nem toda porta fechada é sinal de abandono. Às vezes, é só xixi mesmo.






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