Homem com H" e o incômodo da liberdade alheia
- Ana Paula Corrêa
- 9 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Acabei de assistir ao filme Homem com H, uma homenagem clara e justa ao ainda vivo artista Ney Matogrosso. E quer saber? Que bom que, de uns tempos pra cá, a mídia tem feito isso: homenagear pessoas vivas.
Nunca fez sentido pra mim esse hábito de encher de flores o túmulo de alguém que nunca recebeu uma rosa em vida. Afinal, como é que a pessoa vai saber que era amada, reconhecida, ou que seu trabalho tocou alguém, se só descobre isso quando já virou estátua? Homenagens devem ser feitas enquanto os olhos ainda brilham, enquanto os ouvidos ainda escutam.
Mudando de assunto mas nem tanto lembrei de algo que minha mãe sempre dizia:
“A gente precisa experimentar antes de dizer que não gosta.”
Claro que ela falava de comida (nada a ver com drogas, antes que pensem). Mas, veja só, esse conselho fez todo sentido nesse dia.
Ney Matogrosso nunca foi meu artista favorito. Na verdade, talvez por ignorância minha, sempre o vi como alguém excêntrico demais. Me perguntava: “Pra quê tudo isso?” E sei que muita gente já pensou o mesmo. Mas foi justamente aí que a ficha caiu: homenagear os vivos também nos dá a chance de ajustar o nosso olhar, de mudar nossas percepções e quem sabe até passar a admirar quem antes nos causava estranhamento.
Foi o que aconteceu comigo. Não sei nem por que comecei a ver Homem com H. Talvez porque tô nessa fase de assistir coisas diferentes, sair um pouco do lugar-comum. E confesso: gosto de cinema nacional, mesmo com todo o ranço que o povo tem por conta dos palavrões, da nudez, das drogas, da sexualidade. Gosto mesmo assim. E quando é biografia, então… gosto mais ainda.
Pois bem, assisti ao filme. Uma belíssima homenagem a Ney Matogrosso. E sim: minha mãe estava certa (de novo). A gente precisa experimentar e, mais que isso, entender por que não gosta. O que será que incomoda tanto?
Prometo não dar spoiler, mas o filme mostra de forma muito sensível quem é Ney Matogrosso ou melhor, quem ele sempre foi. Porque ele não “se tornou”, ele sempre foi. Só não abaixou a cabeça, não se moldou ao que esperavam dele. Filho de militar, curioso ele não ter seguido a carreira do pai. Talvez, no fundo, pra provar justamente que ser um “homem com H” não tem nada a ver com seguir rótulos.
A coragem dele é masculina. A liberdade dele é masculina. A arte dele é masculina. Ney é um homem com H não apesar do que sente ou performa — mas por causa disso.
Curiosamente, conforme o filme avançava, eu ia gostando mais desse homem, desse artista, ia cantando junto as músicas e descobrindo que já gostava delas. Que elas me tocavam. E que faziam sentido na voz dele.

Foi uma tremenda revelação. Sobre ele, claro. Mas principalmente sobre mim.
Como psicóloga, trago isso para os meus pacientes e pra quem me lê:
Observar aquilo que nos incomoda é um caminho certeiro pra dentro de nós.
Se o jeito exuberante, livre, irreverente do Ney nos incomoda... talvez seja porque gostaríamos de ser mais assim. Não na extravagância, necessariamente. Mas na liberdade. Na coragem de ser.
Assistir a Homem com H foi mais do que ver um filme. Foi um espelho. Foi um momento de autoconhecimento. E era disso que eu precisava. Só não sabia.






Comentários