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É Assim que Acaba (mesmo?)

"É Assim que Acaba" é uma adaptação do best-seller de Colleen Hoover. Sucesso nas prateleiras e nas telonas. A história de Lilly, que é inspirada na vida da autora, me surpreendeu e me deixou pensativa, me fazendo chorar, mas depois que o filme acaba.




Há duas coisas sobre mim, que não são segredos para ninguém.

Um, o fato de eu chorar assistindo a um filme. E nem precisa ser de romance.

Dois, eu gostar de spoilers. Na verdade são eles que me fazem decidir, se irei ou não assistir algo.


Com o filme É Assim Que Acaba não foi diferente.

Há um tempo venho acompanhando perfis de leitores, que indicam os livros da Colleen. E este é um dos principais. Confesso que não fiquei nem um pouco atraída. Tão pouco me preocupei em tomar conhecimento sobre a história.

Mas foi só sair a adaptação para as telas do cinema, que tomar ciência da história se tornou impossível de ser ignorada.

A violência doméstica é um dos pontos do filme. E ao saber disso pensei que já tivesse todo o spoiler do qual precisava para me decidir se queria ou não ver.


Não era meu plano, mas sem nada para assistir pensei "Por que não?"


importante: se você não gosta mesmo de spoiler e ainda não sabe nada sobre o filme, sugiro que pare a leitura e volte quando assistir.


Lilly é filha única e chega para ajudar a mãe no enterro do pai.

Logo percebemos o quanto isso é difícil para ela. No mesmo dia ela conhece aquele que viria a ser seu marido, Ryle , um médico neurocirurgião, que como ele mesmo se define, bonito e rico.


Ele, que explicitamente tem medo ou aversão a relacionamento, não consegue tirar Lilly da cabeça. Ela, que diz não ser do tipo que faz sexo casual, se envolve com esse homem charmoso.


Confesso que por saber o tema principal da história, fiquei o tempo todo esperando pelo momento em que ele irá dar o primeiro tapa nela.


Mas pasmem, isso não acontece.

Ao menos não como eu pensei que fosse.


No decorrer da história, Lilly que agora namora Ryle, esbarra com Atlas, seu melhor amigo e primeiro amor da adolescência.

É com Atlas que ela tem sua primeira vez. E quando conta isso a Ryle, não imagina que poderia voltar a ver o amigo algum dia.


Atlas, é dono do restaurante, em que Lilly, a mãe e o então namorado vão visitar. Em uma segunda oportunidade, mesmo contra sua vontade ela acaba voltando ao restaurante. Dessa vez acompanhada do namorado e a cunhada com o marido.


Lilly está com um olho roxo e Ryle com a mão machucada. Naquela manhã, quando estavam na cozinha namorando, o casal deixa a comida queimar. Ryle tenta retirar a panela do forno sem luvas, queima a mão e no impulso sua mão vai parar no rosto de Lilly.


É claro, que ao vê-la assim, Atlas sente raiva. Na adolescência, ele é expulso de casa pela mãe, que apanhava do namorado, enquanto Lilly assistia a mãe apanhar do marido.

Os dois dividem uma história triste, que deixa marcas para a vida adulta.


Vida que segue... ou que deveria seguir.


Dias depois, Atlas vai até a loja de flores de Lilly e deixa para ela seu cartão com um número de telefone.


Aqui, preciso compartilhar meu pensamento e confesso que não me orgulho dele, mas pensei ... "essa mulher é doida? o namorado e o ex. já estapearam por causa dela. Se esse homem encontrar esse número a coisa vai ficar feia, tem gente que caça. Certeza que é ai que ele vai quebrar ela".


Mas eu estava errada.

Ryle não bate em Lilly.

Na verdade, quando toma conhecimento do tal cartão, eles já estão casados. E ao derrubar o celular dela no chão é que ele encontra o cartão que Atlas colocou lá.


"não disse que ia dar ruim..." (meu pensamento).

O casal discute e Lilly sai andando atrás do marido, mas no meio da discussão, ela cai da escada.


não disse que ele não tinha batido ela.


Quando acorda, o marido está limpando o sangue de sua testa e checando se está tudo bem com sua parte cognitiva.


Já chega.

A gente sabe que não foi sem querer. E Lilly também sabe.

Mas essa percepção só virá mais tarde, quando ele tenta "provar o seu amor" forçando uma relação e mordendo sua tatuagem.


Não foi sem querer. Nem a escada, nem o incidente com o forno. Não foram acidentes.

Lilly sabe o que é uma violência doméstica, viveu isso com a mãe, e se quer entendeu como a mãe pode permanecer com o pai naquelas condições.


Mas ali, aquilo. Não era violência. Foram acidentes.

do mesmo jeito que acontece com tantas outras mulheres. Que caem e escorregam.


Eu como espectadora não vi. Porque estava preocupada, com o momento em que ele levantaria a mão para ela em meio a uma discussão. Ou quando ele decidisse agredi-la com um soco por qualquer outra bobagem.


Imagino que essas partes possam estarem presentes no livro, afinal, as histórias nos livros são sempre mais completas.


Por um momento, eu pensei que estivesse ignorando por completo as sutilezas, os sinais.


Mas percebi que é dessa maneira que uma mulher que é agredida muitas vezes enxerga o mundo.



Fomos pegas de surpresa

Acredito que, assim como eu, que passei boa parte do filme esperando por uma cena perturbadoramente clássica de uma violência doméstica. A personagem também não pode ver de imediato. No primeiro "acidente". Afinal, parecia de fato que foi o reflexo dele, puxando a mão do forno quente que atingiu seu rosto.

Ou ainda a queda da escada, que só aconteceu porque uma briga antes surgiu, devido a um número de telefone, do qual ela nem deveria ter guardado.



Não foi sem querer, tão pouco foi inocência da parte dela, a de permitir que o contato do Atlas ficasse no seu celular. Talvez, alguma coisa dentro dela dizia que ele estava certo e que poderia protegê-la.


Lembra que eu disse que chorei?

Pois é, nenhuma novidade até aqui. Mas é que não chorei durante o filme e sim depois. Quando percebi que muitas coisas que eu ouço e leio por aí, fazem completo sentido.


Passei parte do filme esperando por um homem que se transformasse em um monstro, que transfigurasse e perdesse a razão.

Mas pelo contrário, por muito tempo ele foi sedutor e atraente.


Também esperei que ele a rebaixasse de forma explicita, mas o que mais a gente espera de um homem que diz:

" Você sabe que eu posso ter qualquer mulher, afinal sou médico, bonito e rico" - Se isso não for um abuso psicológico , então não sei muita coisa.


Chorei, quando eu percebi, que estamos acostumadas a acreditarmos que a violência virá de forma grosseira e explicita, mas ela vem da sutileza dos momentos, do inesperado.


No fundo, Lilly sabia o que estava acontecendo. Mas não conseguia acreditar. Afinal, como justo ela não iria perceber? Justo ela que viu a mãe apanhar do pai a vida toda. E o namorado quase morrer após ser espancado por seu pai.


Pois é verdade, chorei mesmo e muito. Por conseguir com um filme com rótulo de romance, enxergar pela perspectiva de uma mulher que sofre com a violência.

Lilly acreditou que era amor, que ele a amava e que jamais faria algo assim.


É Assim Que Deveria Acabar

Mas infelizmente não é como acaba.

Lilly pode separar as coisas, separar o homem que a agrediu do pai de sua filha. Mostrando a ele por outra forma de enxergar o que ele mesmo fez.


Dizendo que não se trata dela ou dele, mas da filha Emmy.


Tendo pessoas que a apoiam, como Atlas, a mãe e a cunhada e melhor amiga Alyssa.



Escuta aqui, como irmã dele tudo o que eu mais queria era que você achasse uma forma de perdoar o Ryle. Mas como sua melhor amiga, se aceitar ele de volta eu nunca mais falo com você.

Chorei, porque nem todas podem contar com uma rede de apoio assim.


Mesmo sabendo o tema principal da história, fui pega de surpresa. Um romance que tinha para um clichê, me fez pensar e enxergar por uma outra perspectiva.



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