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O Que Há de Errado com a Música Borderline? Um Alerta sobre Psicofobia e Estigma

Primeiro, antes de entrarmos nos dados e explicações, uma coisa precisa ser dita logo de cara: Relacionar transtornos mentais a comportamentos abusivos ou perigosos de forma generalizada é um erro gravíssimo e é, sim, uma forma de psicofobia.


Não sabe o que é? Então já anota ai:


PSICOFOBIA É um termo utilizado para discriminar ou disseminar o estigma relacionado à saúde mental, sendo uma forma de preconceito e discriminação direcionada a pessoas que vivem com transtornos mentais ou condições psicológicas. Esse estigma pode aparecer tanto de maneira explícita quanto em atitudes mais sutis, como comentários depreciativos, piadas ou afastamento social. Além de gerar exclusão, esse comportamento acaba dificultando que muitas pessoas procurem apoio psicológico ou tratamento psiquiátrico.


E a música da dupla Mayara e Maraísa infelizmente caiu nessa armadilha, ainda que talvez sem intenção.


O que a letra nos revela


nem preciso de CRM para diagnosticar essa loucura que você está vivendo "Problema:

CRM é o registro dos médicos, ou seja, aqui ela brinca dizendo que nem precisa ser médica para "diagnosticar" a situação como "loucura".

Por que é grave? Usar o termo "loucura" para falar de transtornos mentais reforça estigmas antigos e extremamente preconceituosos. "Loucura" é uma palavra pejorativa, usada historicamente para invalidar pessoas que precisam de acolhimento, não de julgamento.



"esse perfil se encaixa numa personalidade borderline "

Aqui ela liga um comportamento de relacionamento abusivo diretamente ao transtorno de personalidade borderline (TPB).

Por que é grave?


  • Nem todo mundo com TPB é abusivo.

  • Na verdade, a maioria das pessoas com TPB sofre muito mais do que causa sofrimento aos outros.

  • Relacionar TPB a "personagens", "enganos" e "isolamento" é uma distorção completa do que o transtorno significa.

  • O TPB é um transtorno caracterizado principalmente por medo extremo de abandono, instabilidade emocional, dificuldade de autoimagem e relacionamentos intensos — mas isso NÃO é igual a manipular ou isolar o outro deliberadamente.

"ele te isolou de todo mundo não romantiza esse absurdo ele é instável ele é intenso ele é extremo

  • Sim, existem relacionamentos abusivos em que há isolamento, instabilidade e intensidade, mas isso não é exclusivo de pessoas com TPB.

  • Muitas vezes quem é abusivo pode não ter nenhum transtorno mental ou ter outros problemas — como narcisismo patológico, por exemplo — mas nunca devemos "colocar no mesmo saco" transtornos clínicos e comportamentos tóxicos.


Refrão:

"ele não precisa de você e nem dos seus sentimentos só de tratamento" "você não é remédio de maluco"

  • Aqui reforça a ideia de que quem tem transtorno mental é perigoso e "mau", além de chamar pejorativamente de "maluco", o que é extremamente ofensivo.

  • Pessoas com transtorno de personalidade borderline precisam de tratamento especializado (psicoterapia, por exemplo), mas também precisam de relações saudáveis, empatia e compreensão, não de estigma.

Maiara e Maraisa divulgação da música Borderline

Vamos aos dados ...


1: A maioria das pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline são vítimas, não vilãs.

  • Segundo a Associação Americana de Psiquiatria (APA), pessoas com TPB sofrem intensamente com medo de abandono, rejeição e instabilidade emocional.

  • Muitas se envolvem em relacionamentos difíceis justamente porque se sentem indignas de amor, não porque querem isolar ou manipular o outro.


2: Violência e abuso não têm "cara de transtorno".

  • De acordo com o Ministério da Saúde, comportamentos abusivos em relacionamentos estão muito mais associados a dinâmicas de poder e controle (em qualquer pessoa) do que a diagnósticos psiquiátricos.


3: Psicofobia mata.

  • O estigma contra transtornos mentais aumenta o isolamento, a vergonha e a falta de busca por tratamento.

  • Dados da OMS mostram que 90% das pessoas que morrem por suicídio têm transtornos mentais não tratados — muitas vezes porque sentem vergonha ou medo de serem julgadas.


E porquê isso é tão sério e perigoso


  • Associar borderline diretamente a abuso cria medo injustificado em torno de pessoas que já sofrem muito.]


  • Reforça a ideia de que quem tem transtornos mentais é "violento", "doente", "perigoso", quando na maioria dos casos, são pessoas vulneráveis que precisam de acolhimento e tratamento.


  • Espalha desinformação sobre saúde mental, o que pode afastar ainda mais quem precisa de ajuda.


  • Alimenta o preconceito social, dificultando a inclusão e aumentando o sofrimento psíquico.


A música poderia ter falado sobre relacionamentos abusivos sem envolver o nome de nenhum transtorno. Assim, teria sido uma denúncia potente e não uma contribuição para o preconceito contra a saúde mental. Infelizmente, do jeito que foi feito, acaba prejudicando um grupo já vulnerável.


Notas musicais

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