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Maria de Fátima e seu horror a pobre

A novela Vale Tudo está de volta em forma de remake e, com ela, personagens que atravessam décadas, mas continuam atuais. Uma das figuras que mais está chamando atenção é Maria de Fátima, vivida agora por Bela Campos. Ambiciosa, impulsiva e com um discurso direto: “Tenho horror a pobre.” O que era pra causar repulsa, tem gerado, no mínimo, curiosidade. Afinal, por que nos choca tanto ouvir isso, se estamos mergulhados numa cultura que vende o tempo todo a ideia de que a vida só vale a pena se for rica, bonita, instagramável?


maria de fátima accioli

Maria de Fátima só teve coragem de dizer o que muita gente pensa — e a internet aplaude quem age como ela


Maria de Fátima representa o que muita gente sente, mas não verbaliza. E talvez o que incomode nela seja justamente isso: ela escancara. E o mais inquietante é perceber o quanto sua narrativa dialoga com o nosso tempo. Se nos anos 80 o sonho de ascensão social passava por se tornar modelo, hoje o bilhete dourado é ser digital influencer. Basta abrir o Instagram e lá está: mais um “recebido”, mais um look pago, mais um post patrocinado. A lógica não mudou, só se adaptou.


A personagem de Camila Pitanga na recente novela Beleza Fatal reforça isso. Donos de clínicas de estética, influenciadores que vendem batons milagrosos, fórmulas mágicas e promessas vazias. Parece absurdo, mas não é ficção. A gente vê isso todos os dias: pessoas que prometem emagrecimento com uma cápsula, dinheiro fácil com o “tigrinho” e sucesso garantido com uma mentoria relâmpago. E a pergunta que fica é: como ainda acreditamos nisso?


Vivemos num tempo em que a pressa tomou conta da nossa forma de pensar. Ninguém quer esperar, ninguém quer construir aos poucos. O que faz sucesso é o:

“deu certo do dia pra noite”.

E com isso, muita gente passa a acreditar que, se ainda não ficou rico, é porque está fazendo algo errado. Que é burro, azarado ou incompetente. É cruel, mas real.

As redes sociais vendem esse estilo de vida embalado em filtros. E quando todo mundo parece estar vivendo uma vida dos sonhos, a comparação se torna inevitável. Como não se sentir frustrada ao ver uma influencer de 22 anos com carro importado, apê decorado e mala pronta pra Dubai?


Hoje, o currículo é o número de seguidores. E se antes precisávamos de competências, agora precisamos de visibilidade. Atrizes consagradas já relataram ter perdido papéis por não “entregarem engajamento”. A lógica de mercado virou lógica de vida. E nesse jogo, quem diz que “tem horror a pobre” não está dizendo que odeia alguém — está dizendo que tem medo de ser deixado para trás. Que sente vergonha da vulnerabilidade. E isso é muito mais comum do que parece.


O que Maria de Fátima faz, então, é dar voz (ainda que distorcida) a uma angústia coletiva: a de não se sentir suficiente. E é aí que mora o perigo — quando a gente passa a acreditar que só é alguém se tiver muito. Muito dinheiro, muitos likes, muitos produtos. A verdade é que tem muita gente tentando parecer rica só pra não parecer fracassada.


A internet tem um poder gigante. Pode conectar, empoderar, transformar. Mas também pode iludir, desconectar e ferir. E o que a ficção faz, quando bem feita, é isso: espelhar a vida, nos obrigando a olhar com mais cuidado para nossas próprias escolhas. A pergunta que fica é: estamos vivendo de verdade, ou só tentando viralizar?

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