Esperar que o outro mude pode se tornar um hábito
- Ana Paula Corrêa
- 2 de mai.
- 3 min de leitura

Tem coisa que começa tão pequena que a gente nem percebe.
Você chama a pessoa para sair, mas ela nunca pode. Tudo bem. Você entende. Na semana seguinte, tenta de novo não dá, ela está cansada, ocupada. Você releva. Entende que a vida é corrida mesmo. E assim você passa a ir se adaptando: espera um pouco mais, escolhe melhor o momento, tenta não “pressionar”.
No começo, parece até maturidade, paciência, cuidado com o outro, respeito pelo tempo dele.
Só que, aos poucos, isso vai se repetindo.
Você continua chamando. Continua entendendo. Continua ajustando. E, quase sem perceber, passa a esperar menos, falar menos, cobrar menos. Mesmo que ainda queira essa relação.
O que começou como compreensão vai se tornando um padrão silencioso. Um jeito de se relacionar onde você se adapta antes mesmo de saber se o outro faria diferente. Onde você já entra esperando pouco.
Curioso disso é que você percebe.
Você sabe que não está sendo escolhida como gostaria. Sabe que a troca não é equilibrada. Consegue nomear o que sente, explicar pra si mesma, até justificar o outro.
Mas permanece, em uma relação com pouca ou nenhuma reciprocidade.
Porque, sem perceber, isso se tornou um hábito.
Assim como a gente aprende a acordar cedo, a rolar o feed sem pensar, a responder sempre da mesma forma… a gente também aprende a permanecer em certos lugares. Em relações que não nos acrescentam nada. Lugares onde a gente já sabe o que vai encontrar mesmo que não seja o que gostaria.
E porque somos assim?
Acontece que nosso cérebro se apega ao que é conhecido. Mesmo quando machuca, existe uma previsibilidade ali. E o previsível dá uma sensação de controle. Por isso, muitas vezes, continuar parece mais fácil do que interromper o ciclo.
E quando você tenta fazer diferente, não vem o alívio.
Ao contrário.
A vontade de voltar ao padrão aumenta.
É semelhante a uma criança quando faz birra e, pela primeira vez, o adulto decide não ceder. A birra não diminui de imediato ela intensifica. Choro mais alto, mais insistência, mais tentativa. Aquilo que sempre funcionou tenta funcionar de novo.
Com a gente em nossas relações não é diferente.
Quando você para de responder como sempre respondeu, quando deixa de correr atrás, de preencher o espaço, de facilitar o encontro… a sensação interna cresce. A vontade de ir atrás, de mandar mensagem, de “só ver como a pessoa está” fica mais forte.
E é aí que muita gente volta para o mesmo lugar.
A experiência interna fica mais intensa do que o esperado, e o impulso de aliviar isso fala mais alto.
Só que esse aumento faz parte do processo.
Tudo que a gente repete muitas vezes ganha força. E não é interrompendo uma vez que isso desaparece. No começo, parece até que piorou. Com o tempo, aquilo que não é mais alimentado começa a perder intensidade.
A vontade não some de uma vez, mas deixa de comandar.
Por isso que alguns conselhos parecem simples demais tipo “para de ir atrás”, “se afasta”, “não responde”. Eles tocam em algo real, mas não mostram o que vem junto: no início, fazer diferente exige mais esforço.
É desconfortável. Dá vontade de voltar. Surge a sensação de estar fazendo algo errado.
Mas o que está acontecendo é outra coisa: você está interrompendo um padrão que vinha sendo repetido há tempo suficiente pra parecer natural.
E, aos poucos, quando você para de facilitar o acesso quando deixa de se expor tanto, de acompanhar tudo, de estar sempre disponível algo começa a mudar. Não de forma imediata, nem linear, mas consistente.
A intensidade diminui.
O impulso perde força.
E aquilo que antes parecia automático começa, finalmente, a abrir espaço para outras formas de se colocar.
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