Como minha gata me ensinou a meditar
- Ana Paula Corrêa
- 28 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
Por mais que muitos de nós não gostemos dessa palavra, ainda assim ninguém pode fugir dela, a rotina.
Algumas nos são impostas, outras vamos criando por conta própria até mesmo sem perceber.
Há um certo tempo venho tendo dificuldades em ter um boa noite de sono. E como bem se sabe “casa de ferreiro o espeto de pau”. Como psicóloga, sei bem dos benefícios do sono e de uma noite bem dormida.
Ainda assim, percebi que estava sendo resistente a algo que estava ali na minha frente e eu não percebia. Precisava fazer a higiene do sono.
Por mais que indiquemos e orientemos nossos pacientes sobre a prática, nem sempre fazemos o mesmo. Mas antes de optar por uma medicação, considerei que seria interessante, buscar ajustar meu comportamento e então se fosse o caso, buscar por auxilio de outro profissional.
Comecei me distanciando da televisão, deixando que meu marido assistisse programas dos quais considero desinteressantes. Em seguida eu tomava um banho e partia para a preparação antes de me deitar de fato.
Acontece que além de mim mais alguém tinha seu ritual.

Ravena, minha gata de olho azuis e pelagem branca com marrom. Linda e calma.
Bastava eu me ajeitar, entre estar deitada e sentada, e começar a ler um livro, ela chegava, miando e ronronando, em seguida apoiava suas patinhas dianteiras em minha barriga e começava a “amassar pãozinho”.
E não parava por aí, Ravena queria atenção, então por mais que eu conversasse com ela durante o carinho, ela queria mais. Não gostava de me ver dividindo a atenção dela com outra coisa, mesmo que essa coisa fosse um livro, então sua tática era extremamente persuasiva, Ravena subia e começava a transitar em cima de mim, passando a cauda em meu rosto, indo de um lado a outro.
Por ter pelos longos, em cada passada deixava muitos fios em meu rosto. Ravena fazia isso, até que eu soltasse o livro por completo e passasse a dar atenção unicamente a ela.
Depois de um tempo, acarinhando seu pescoço, ela respirava fundo e se retirava. Outras vezes ela fazia o mesmo ritual, mas acrescido de um carinho na barriga, outras de um afago nos meus cabelos, como se fosse uma recompensa por eu ter dado a ela atenção que tanto pedia.
Em minha prática clínica e na vida pessoal também, ouço muitas pessoas dizendo o quanto querem desacelerar. Que desejam inclusive praticar a meditação, mas em seguida fazem uma emenda na frase e a completam com “mas meditar é tão difícil”.
Em outros tempos eu tentava explicar, depois passei a me calar, mas ultimamente eu pergunto “Mas você já tentou?”
Claro que as respostas são diversas também, mas em sua maioria as pessoas trazem o conceito de meditar como o de esvaziar a cabeça e simplesmente não pensar em nada.
Meditar implica em mais do que apenas “esvaziar a mente”, até porque não se pode deixar de pensar.
Somente o fato de você pensar que precisa deixar de pensar, já te faz pensar. E quando você está em silêncio logo se pergunta, será que eu consegui?
Pronto, já pensou outra vez!
Portanto meditar definitivamente não é isso. Mas como fazer?
Eu aprendi com a Ravena, algumas lições muito importantes. Uma delas é: Direcionar a atenção a uma coisa por vez.
Sempre que eu me posicionava para ler, ela subia na cama e pedia carinho, enquanto eu tentava dividir a atenção. Acontece que, quando eu lia, não conseguia focar integralmente no que estava lendo, pois precisava voltar algumas frases as vezes, ou me perdia sem entender o que havia acabado de ler. E Ravena era prejudicada também, pois meu carinho era automático, seco, sem sentimento ou emoção.
Quando deixava o livro de lado e dedicava minha atenção a ela, o carinho era mais humano, carregado de sentimentos. Ela gostava tanto, que as vezes dormia, com as patinhas em volta dos meus braços, como se quisesse abraça-lo.
Definitivamente, os gatos vivem melhores que nós, isso é inquestionável. E observá-los é uma forma de aprender a viver. Ao menos viver minimamente mais calmo.
Ravena me ensino sobre meditação e atenção, pois quando se vai meditar, não se deve tentar afastar todos os pensamentos, mas ao contrário, focar em apenas alguma coisa. Pode ser na sua respiração, nos barulhos internos, nos externos.
A minha maneira é observando-a, quando posso lhe fazendo carinho. Observo bem de perto cada detalhe, as patinhas, a carinha dela a cada toque, observo quando ela gosta e quando não.
E não adianta repetir sempre os mesmos movimentos, cada vez é a única vez, na próxima o carinho tem que ser diferente, especial.
Quer aprender a meditar, que tal começando a observar seu pet.




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